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12/04/2016 16:00

A importância de instrumentos validados para assistência de enfermagem a pessoas com feridas

Prestar assistência a pacientes com feridas é atualmente um grande desafio multiprofissional na área da saúde, mas certamente atinge um maior impacto na prática da enfermagem, que por sua vez realiza-o de forma integralizada, considerando o paciente como um ser biopsicossocial e ultrapassando a simples técnica de realizar o curativo.

O profissional de enfermagem desempenha um trabalho de relevância no tratamento de feridas, uma vez que tem maior contato com o paciente, acompanha a evolução da lesão, orienta e executa o curativo, bem como, tem maior domínio desta técnica, em virtude de ter na sua formação componentes curriculares voltados para esta prática.

No Brasil, as feridas acometem a população de forma geral, independente de sexo, idade ou etnia, constituem um sério problema de saúde pública, devido ao grande número de doentes com alterações na integridade da pele, embora sejam escassos os registros desses atendimentos.

As concepções e práticas voltadas ao cuidado de pessoas com feridas não comportam mais um olhar fragmentado que visa somente tratar a doença. Busca-se uma prática assistencial de acolhimento e respeito, para um ser com sentimentos e valores embasados na dignidade humana. A compreensão da prática do cuidar, a partir do desenvolvimento técnico científico atual, somente se faz a partir de uma visão holística do outro.

O enfermeiro deve ainda ter uma visão ampla no que se refere ao tratamento de ferida crônica e atentar não apenas para a lesão em si, mas ter o conhecimento de realizar uma abordagem holística de modo a contemplar o ser humano em sua plenitude, uma vez que temos à nossa frente um ser humano especificamente fragilizado, impactado na autoestima e no autoconceito, com odores e secreções.

A enfermagem nos últimos tempos deixou de ser empírica e passou a se preocupar com uma prática pautada em bases científicas, possibilitando o cuidado qualificado voltado para o atendimento das necessidades de saúde do indivíduo, da família e da comunidade.

No intuito de atender à necessidade de descrever, explicar, predizer e controlar os fenômenos de interesse para a enfermagem, modelos conceituais e teorias foram desenvolvidos como meio de aplicar sua base de conhecimento na prática.

Os modelos conceituais e teorias de enfermagem retratam a visão de mundo e as experiências profissionais do enfermeiro na construção dos mesmos. Desse modo, o conhecimento teórico influencia a realidade, assim como a realidade também influencia o desenvolvimento teórico da enfermagem. A escolha de uma teoria deve ser orientada por um propósito explícito ou assunto de interesse.

Um dos modelos mais utilizados por enfermeiros, é o modelo conceitual proposto pela enfermeira brasileira Dra. Wanda de Aguiar Horta, por sua importância no contexto brasileiro. Este modelo conceitual é amplamente utilizado no país, o qual conduz o enfermeiro não apenas na prestação de cuidados biológicos, mas também em prestar cuidado ao cliente, baseando-se em entender suas necessidades emocionais, sociais e espirituais.

No Brasil, com os estudos da teórica Horta, foi introduzido o processo de enfermagem. A partir de então, vários estudiosos têm demonstrado sua importância na prática assistencial, favorecendo tanto a comunicação entre profissionais, como o reconhecimento das ações de enfermagem e proporcionando a documentação do mesmo de forma legal.

A Teoria das Necessidades Humanas Básicas (NHB) foi desenvolvida com preocupação com a prática da enfermagem bem como uma tentativa de unificar o conhecimento científico da enfermagem para proporcionar uma autonomia e independência. Nos trabalhos de Horta, enfatizou-se o planejamento da assistência, na tentativa de tornar autônoma a profissão e de caracterizá-la como ciência, por meio de implementação do Processo de Enfermagem em todo o Brasil.

No momento da aplicação do processo de enfermagem, são registrados os dados do indivíduo, família ou comunidade. Nesse instrumento, serão anotadas as informações específicas do paciente e, para que isso aconteça, é importante dispor de um instrumento apropriado que forneça uma base sólida para dar continuidade às demais etapas.

Destarte, o processo de enfermagem (PE) objetiva organizar o cuidado profissional de enfermagem na perspectiva de um processo complexo, sendo definido como o trabalho da equipe de enfermagem visando à satisfação das necessidades de saúde da pessoa, família ou comunidade, implicando o reconhecimento de uma situação e consequentemente na geração de um planejamento, intervenção e avaliação de resultados.

Depreende-se que a SAE é uma ferramenta de trabalho que pode contribuir significativamente para a qualidade dos cuidados prestados ao paciente, além de ser uma exigência ética e legal, conforme trata a Resolução COFEN 358/20097 (COFEN, 2009).

Todas as etapas do PE devem ser documentadas no prontuário do paciente, considerando-se que os registros de enfermagem são elementos imprescindíveis no processo de cuidar, e possibilitar a comunicação permanente entre os membros da equipe interdisciplinar em saúde.

Para que a qualidade da assistência prestada a pessoa com feridas seja avaliada, é imprescindível que o enfermeiro registre e documente o processo de enfermagem. A documentação gera dados que possibilitam a mensuração do quanto a assistência prestada contribuiu para a estabilização do quadro dos pacientes sob os cuidados de enfermagem, bem como sobre a pesquisa e o ensino  .

Para que a assistência de enfermagem seja documentada, se faz necessário a existência de instrumentos próprios. Um instrumento de coleta de dados em enfermagem, visa documentar as informações de forma objetiva, científica e compreensiva, permitindo a identificação de diagnósticos de enfermagem e, consequentemente, a determinação de ações de enfermagem gerando uma assistência de melhor qualidade.

Para avaliação de lesões temos inúmeros instrumentos validados como, a escala de Push, a qual está relacionada a cicatrização de úlcera por pressão, como também outro instrumento bastante utilizado em nosso meio, que é a escala de Bárbara Bates-Jensen, que se refere a um instrumento de avaliação do estado da úlcera por pressão. Mesmo com esses instrumentos, que são fundamentais para avaliação de um cliente com feridas, ainda se faz necessário a construção de outros instrumentos que abordem além da lesão, que apresentem uma abordagem mais holística e individualizada.

O registro no prontuário do cliente da assistência a ele prestada, abrange diversos aspectos, respaldando ética e legalmente o profissional responsável pelo cuidado, sabendo que o registro é uma obrigação legal, definida e normatizada pelo Conselho Regional de Enfermagem.

Temos inúmeros enfermeiros assistenciais e docentes pesquisando sobre construção de instrumentos em diversas áreas da enfermagem, mas no que se refere a feridas ainda é insipiente. Torna-se necessário estudos que tragam como enfoque a construção de instrumentos para pessoas com feridas, que aborde o cliente como um todo, para que tenha uma melhoria na qualidade da assistência de enfermagem, visto que, o enfermeiro além de realizar a avaliação da lesão e ter conhecimentos sobre limpeza, desbridamento e coberturas específicas para tratamento das lesões, também deve registrar todas as informações sobre a evolução da cicatrização das lesões e, para isso se faz necessário a utilização de instrumentos próprios e validados para que se garanta uma fidedignidade nas anotações, bem como no acompanhamento do tratamento.




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