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12/08/2016 08:30

O ensino e a prática da saúde baseados em evidências

A área da saúde, nos últimos anos, tem passado por diversas mudanças mediante o avanço e o acesso da informação e da tecnologia, porém, seu objetivo principal, o cuidado ao paciente, permanece imutável, gerando contínuos desafios a serem vencidos de forma individual em cada decisão tomada., necessitando, desta forma, análises muito mais críticas e cuidadosas, devendo embasar-se em princípios científicos, a fim de selecionar a intervenção mais adequada para a situação específica de cuidado, uma vez que existem diferenças entre esperar que esses avanços tenham resultados positivos e saber se eles verdadeiramente funcionam (SCHMIDT; DUNCAN, 2003). 

O termo “baseado em evidência” se aplica à utilização de pesquisas como base para a tomada de decisões sobre a assistência à saúde. A qualidade da evidência é um aspecto crucial na prática baseada em evidências. O profissional de saúde deve ser capaz de fazer julgamentos reconhecendo o bom e o ruim, as forças e as fraquezas, para poder generalizar a evidência, avaliar e utilizá-la criticamente, e não tomá-la com absoluta confiança (BENNETT; BENNETT, 2000; HUMPRIS, 1993).

As práticas clínicas baseadas em evidências têm sido definidas como o uso consciencioso, explicito e criterioso das melhores evidênciasdisponíveis na tomada de decisãoclínica sobre cuidados de pacientes individuais (SACKETT et al., 1996). Busca-se reconhecer publicações com melhor rigor científico (estudos bem desenhados e bem conduzidos, com número adequado de pacientes), compilar esses estudos, torná-los acessíveis aos profissionais da saúde – diminuindo, assim, as incertezas clínicas, visando contribuir para a qualidade do atendimento clínico por meio de ações de formação continuada desses profissionais, tais como:

·  Identificar e compilar os melhores estudos;

·  Aprender como fazer a avaliaçãocrítica da literatura disponível;

·  Disponibilizar essas evidências em bases de dados eletrônicas.

Bons profissionais de saúde utilizam tanto sua vivência clínica quanto as melhores evidênciasdisponíveis na sua tomada de decisãoclínica. Mesmo uma evidênciacientífica de qualidade pode não se aplicar a um determinado paciente. Ensaios de efetividade gerados em países ou populações com características muito diversas nem sempre podem ser aplicados ao nosso paciente.

A partir disso, saúde baseada em evidências é o elo entre a boa pesquisa científica e a prática clínica, podendo ser definida como saúde baseada na redução da incerteza, utilizando provas científicas existentes e disponíveis no momento, com boa validade interna e externa para a aplicação de seus resultados na práticaclínica. Quando é abordado o tratamento e fala-se em evidências, refere-se a efetividade, eficiência, eficácia e segurança. A efetividade diz respeito ao tratamento que funciona em condições do mundo real, aeficiência diz respeito ao tratamento barato e acessível para que os pacientes possam dele usufruir. Já a eficáciaé quando o tratamento funciona em condições de mundo ideal e a segurança significa que uma intervenção possui característicasconfiáveis que tornam improvável a ocorrência de algum efeito indesejável para o paciente (EL DIB; ATALLAH, 2006).

As metodologias participativas de ensino do tipo Aprendizagem Baseada em Problema ou Projeto (ABP) propiciam uma melhor aquisição deste conhecimento, principalmente, por envolver os alunos nas decisões referentes à aprendizagem, submetendo-os àresolução de problemas reais e por promover o desenvolvimento de habilidades necessárias ao desempenho funcional. Esta aprendizagem baseada em problemas se organiza em torno de tarefas complexas, que visam envolver o estudante na resolução de questões ou problemas desafiadores, de forma a conduzi-lo a atividades investigativas, dando-lhe a oportunidade de trabalhar autonomamente e de desenvolver a tomada de decisão.

Com o objetivo de contribuir na formação científica dos alunos, propõe-se desafios que envolvam mobilização de recursos cognitivos, investimento pessoal e perseverança na tomada de decisão durante a construçãodo conhecimento, de forma que habilidades como o estabelecimento de conexões entre conceitos e conhecimentos tecnológicos, o desenvolvimento do espírito de cooperação, de solidariedade e de responsabilidade sejam alcançadas como pressupõe Kawamura e Hosoume (2011).

É proporcionado uma diversidade de questionamentos e argumentações, demonstrando que o desenvolvimento da proposta promoveu competências relacionadas com o fazer científico, bem como aprendizagens significativas dos conceitos abordados.

Contudo, um ensino estruturado sob essa tendência representa um grande desafio para o professor porque pressupõe uma quebra do modelo estruturado durante toda sua vida estudantil e a construção de uma nova identidade profissional.

Desafios são vivenciados como o aperfeiçoamento da formação dos profissionais de saúde pelo desenvolvimento da capacidade crítica e científica para o embasamento da tomada de decisão em relação à incorporação deste conhecimento. E também, para o delineamento de pesquisas sobre diagnóstico, terapêutica e prevenção de doenças, bem como para a implementação de políticas de saúde que fomentem a formação de futuros pesquisadores e profissionais da área da saúde capazes de produzir novos conhecimentos de qualidade. Desta forma, todos devem se apoderar de conhecimentos e o uso de evidências para melhor eficácia, efetividade e segurança no sistema clinico de saúde, realizando adequadamente avaliação crítica da literatura científica para tomada de decisão clínica; conectando as ciências da saúde e das pesquisas clínicas à prática, com conhecimento dos principais modelos de pesquisa clínica, as vantagens e desvantagens de cada um, além de avaliações críticas de inovações e novas e antigas tecnologias.

BENNETT, S.; BENNETT J. W. The processofevidence-basedpractice in occupationaltherapy: informingclinicaldecisions. Austral OccupTher J. v.47, p.171-80, 2000.

EL DIB, R. P.; ATALLAH, A. N. Fonoaudiologia baseada em evidências e o Centro Cochrane do Brasil. Diagn Tratamento, 11:103-6, 2006.

HUMPRIS, D. Typesofevidence. In: HAMER, S.; COLLINSON, G. Achievingevidence-basedpractice: a handbook for practitioners. London: BaillièreTindall. p.13-40, 1993.

SACKETT, D. L.; ROSENBERG, W. et al. Evidencebased Medicine: what it isandwhat it isn’t. BMJ, v.312, n.7023, p.71, 1996.

SCHMIDT, M. I.; DUNCAN, B. B. Epidemiologia clínica e medicina baseada em evidências. In: ROUQUAYROL M. Z. Epidemiologia e saúde. Rio de Janeiro: Medsi, p. 193-227, 2003.