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20/09/2017 09:00

Conhecer a deficiência para orientar sobre a sexualidade: preconceitos e desafios

A conceituação da deficiência é um assunto que historicamente vem associado a estigmas, pois é atribuído às pessoas que diferem dos padrões de “normalidade” socialmente construídos. O estigma social é uma característica que faz com que o indivíduo que o porta seja considerado inferior, sendo assim, este acaba por ser excluído de uma categoria a qual poderia pertencer.

Na tentativa de minimizar os estigmas e a marginalização deste grupo populacional, alguns estudos têm sido realizados com as pessoas com deficiência ou com seus pais e/ou cuidadores na busca de fornecer elementos para a efetivação deste desenvolvimento, no intuito de assegurar aos mesmos, direitos e condições de igualdade com especificidades, o que, por conseguinte, visa a adequação da sociedade e mudanças atitudinais em relação a estas pessoas.

Neste sentido, discutir sobre a temática da deficiência é ainda um desafio, tendo em vista a dificuldade no acesso a informações específicas a este grupo. É importante salientar que para o desenvolvimento da pessoa que possui algum tipo de deficiência é necessário que haja condições para sua evolução global, ou seja, conhecimento e respeito as suas funções cognitivas, emocionais, motoras, sociais e sexuais.

A deficiência intelectual (DI) é definida como um “funcionamento intelectual global inferior à média, que é acompanhado por limitações no funcionamento adaptativo em pelo menos duas das seguintes áreas: comunicação, cuidados próprios, vida doméstica, competências sociais/interpessoais, uso de recursos comunitários, autocontrole, competências acadêmicas funcionais, trabalho, tempo livre, saúde e segurança, onde o início deve ocorrer antes dos 18 anos”. Já a sexualidade refere-se a um conjunto de comportamentos complexos que envolvem a busca da satisfação pessoal, indo além dos aspectos lógicos e genitais, tratando-se de algo essencial para o desenvolvimento integral do ser humano. Porém, ainda é comum a crença de que pessoas com DI são assexuadas, quando são vistas de forma infantilizada.

O tema sexualidade, envolvendo os deficientes intelectuais e/ou seus pais conjuga muitas indagações e inquietações e possibilitam emergir uma série de novos questionamentos sobre vivências pessoais diante da temática.

Este estudo foi um Trabalho de Conclusão de Curso que teve como objetivo fazer uma análise do conhecimento de pais de deficientes intelectuais sobre a sexualidade de seus filhos e quais eram as principais fontes de informação destes, através da aplicação de um questionário. Assim, tratou-se de uma pesquisa exploratória e descritiva, de caráter investigativo com uma abordagem quantitativa. A amostra foi composta por 15 pais de deficientes intelectuais atendidos na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de João Pessoa (APAE/JP). Os resultados mostraram que, de um modo geral, os pais entrevistados possuem pouco conhecimento e raras fontes de informações seguras sobre a temática, bem como, pouco orientam seus filhos quando se trata de sexualidade. Assim, percebe-se a necessidade de programas educacionais e de informações para pais e filhos, já que a sexualidade é vivenciada por meio de um processo dinâmico e permanente, ao longo da vida, permitindo a expressão cultural construída no manejo e enfrentamento desta questão.

Vale salientar que existiu grande dificuldade para a aceitação dos pais em participarem da pesquisa e responderem ao questionário, por isso houve limitação em relação ao tamanho da amostra. Outra limitação encontrada foi referente aos questionamentos sobre o tema, que, por vezes, as respostas dos pais eram contraditórias e também iam de encontro com os achados da literatura.

É fato que não só os familiares, mas também estas pessoas com deficiência intelectual têm plena capacidade de participar de programas de orientação sexual, constituídos pelos mesmos critérios de programas direcionados às pessoas sem deficiência, como: informações adequadas de acordo com a maturidade intelectual e afetiva de cada um; respostas pertinentes e verdadeiras a todas as perguntas e uso de ocasiões formais ou informais para tais finalidades.

Assim, sugere-se a realização de novos estudos envolvendo esta temática e a implantação de um programa educacional para os pais das pessoas com deficiência intelectual assim como para seus filhos, uma vez que são indisponíveis aos mesmos e suas famílias informações claras sobre o tema, por se tratar de um assunto ainda envolto de desconhecimento e preconceitos.

REFERÊNCIAS:

ALBUQUERQUE, P. P. Sexualidade e deficiência intelectual: Um curso de capacitação para pais. Psicologia Argumento,Curitiba, v.29, n.64, p.109-119 jan/mar. 2011.

AMIRALIN, M.; PINTO, E.; GHIRARDI,M.; LICHTIG, I., MASINI, E., PASQUALIN, L. Conceituando Deficiência. Revista de Saúde Pública. v.34 n.1 (p.97-103),2000.

FÁVERO, E. Direito a Educação das pessoas com deficiência. Centro de Estudos Judiciários, Brasília, n.26, p. 27-35. 2004. 

FERNANDEZ, M. Preconceito contra as pessoas com deficiência: as relações que travamos com o mundo. São Paulo: Cortez, Revista Preconceitos, N. 4; 2007.

*Este artigo faz parte da pesquisa de:

FERREIRA, Dayanne Ellen Régis; MARCOLINO, Alinne Beserra de Lucena. Análise do conhecimento de pais de pessoas com deficiência intelectual sobre a sexualidade de seus filhos. João Pessoa/PB, 2014. Monografia Para Conclusão do Curso de Fisioterapia da Faculdade de Ciências Médicas da Paraíba.